Domingo, Dezembro 5, 2021
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El corte inglês enganou-se no país

No nosso país, cada vez mais à “Beira-Mar plantado”, assistiu no passado mês de Novembro, à abertura na Capital do Império (com toda a pompa e circunstância) de uma grande superfície comercial, que teve o condão de servir, entre outras coisas, para, e uma vez mais demonstrar a desesperada situação em que se encontram os bolsos da esmagadora maioria dos portugueses.
Verdadeiramente proibitivos muitos dos preços praticados, (com toda a legitimidade frise-se) marginalizam à priori, uma parte muito significativa dos portugueses, que decerto se limitam a passear no esplendoroso imóvel, sem sequer se atreverem a pensar e sonhar com o comprar de tudo aquilo que a vista regalada pede, mas que a enferma carteira não consente…
Não querendo bater na estafada tecla da sociedade supraconsumista em que vivemos, nem pretendendo de forma alguma, pôr em causa os altos estudos, de viabilidade económica efectuados pelos experts na matéria, o vultuoso investimento bem merecia implantar-se num país onde a grande maioria dos cidadãos não vivesse nas, e pelas ruas, da amargura.
Quando nos comparamos aos países do antigo Bloco de Leste, América Latina ou do Terceiro Mundo podemos sentir um misto de um certo conforto, ou mesmo complexo de superioridade. O problema advém quando olhamos para os nossos congéneres da União Europeia.
Aquilo que os Portugueses ganham, coloca-nos na cauda dos vencimentos auferidos pelos trabalhadores dos restantes países integrantes da “dita” União Europeia.
Com base nos dados fornecidos pelo Eurostart, o salário mínimo nacional harmonizado para 14 meses de remuneração (situação actualmente verificada só em Portugal e Espanha, não se sabendo até quando) varia entre os 30% e os 40% dos outros países. As excepções são a Grécia e a Espanha; o nosso SMN representa 84,7% do SMN Grego e 77,2% do SMN de “nuestros hermanos”.
Mais concretamente a título de curiosidade, no ano passado de 2001 o trabalhador português auferia de SMN 334,69 euros por mês, agora comparemos com os SMN de outros países:

  • Bélgica – 958, 29 Euros
  • Grécia – 395,14 Euros
  • Espanha – 433,71 Euros
  • França – 928,29 Euros
  • Irlanda – 842,57 Euros
  • Luxemburgo – 1.079,14 Euros
  • Holanda – 989,14 Euros
  • Reino Unido – 910,29 Euros *

O País mais próximo de nós em valor é a Grécia. Em 1998, um trabalhador manual português recebia por hora 61,4% do que recebia um grego. No extremo oposto quando comparamos Portugal com a Dinamarca, constatamos que nesse mesmo ano o Português recebia 14,4% do que recebia o seu congénere Dinamarquês.
Duas notas curiosas os portugueses só se equivalem nos salários aos restantes congéneres europeus em dois casos particulares a saber:

  1. No trabalho feminino
  2. Nos cargos de chefia e direcção sobretudo dos organismos e empresas na posse do estado.

No que concerne ao trabalho feminino compreende-se pelo facto dos outros países protegerem, e muito, a maternidade e de muitas mulheres – mães exercerem o trabalho parcial durante parte da sua carreira. Convém também não esquecer que os salários auferidos pelas mulheres são um complemento, importante é certo, e não uma indispensabilidade como se verifica no caso português, sobretudo devido ao parco rendimento auferido pelo cônjuge masculino.
No segundo caso, pasme-se, os chorudos vencimentos auferidos, a que se devem acrescentar inúmeras mordomias (casa, carro, cartões de crédito, telemóveis, refeições etc. etc.), são equivalentes ou suplantam mesmo os dos seus congéneres europeus…
No referente ao custo de vida podemos concluir que não temos ao nível do mesmo, uma disparidade acentuadíssima, mas, mas ao nível de rendimentos isso já se verifica, como se pode constatar pela análise dos quadros comparativos fornecidos por este estudo. Em suma e mediante estes valores, podemos constatar e extrair a conclusão de que temos os rendimentos mais baixos da União Europeia, uma carga fiscal em tudo semelhante, mas nem por isso temos um custo de vida comparável ao rendimento auferido.
Estes números analisados ao pormenor, tornam-se frustrantes e assustadores, quando por outro lado chegamos à triste conclusão que a prometida aproximação gradual aos salários europeus, vem sendo constantemente renegada pelas sucessivas derrapagens da inflação, que avidamente devoram os magros aumentos salariais conseguidos nos últimos anos.
A este ritmo de crescimento dos salários, mesmo se os salários dos outros congelassem numa taxa de crescimento zero, os trabalhadores portugueses, levariam 8 anos para alcançar os seus colegas gregos, 13 anos para apanhar os colegas espanhóis e 23 anos para atingir o rendimento dos belgas.
Quando somos constantemente confrontados e bombardiados por diversas sentenças de opinion–makers, políticos e governantes tornando absolutamente imperiosa, a necessidade de contenção/moderação salarial para se equilibrarem as finanças do país, controlar o déficit, blá blá blá costumeiro, somos invadidos por um profundo pessimismo em relação aos tempos que se adivinham.
Neste andamento e, à laia de conclusão, aos portugueses resta-lhes o papel dos famintos que se limitam a devorar com os olhos as guloseimas expostas na montra da pastelaria pequeno-burguesa em que este país gradualmente se vai transformando.

                                                                                                                      Nuno Maciel

*Dados retirados de um relatório fornecido pela Confederação de Quadros Técnicos e Científicos em Outubro de 2001

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