Domingo, Dezembro 5, 2021
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Estatísticas da Educação intoxicam a opinião pública

O desenvolvimento de estudos e pesquisas que visam tornar mais objectiva, clara e compreensível determinada realidade são sempre de louvar, sobretudo quando a isenção e independência de quem procede a determinada investigação tudo faz por merecer a credibilidade das informações ou dados que publica.
Na educação verifica-se, por parte dos governantes, uma preocupação, legítima, de recorrerem a estudos estatísticos, a fim de tornarem mais inteligível e mensurável múltiplos aspectos do contexto educativo, de modo a poderem melhor fundamentar as suas opções e decisões.
Fazendo fé na capacidade científica e técnica de quem investiga e na honestidade de quem promove a investigação, seria de esperar que a análise dos resultados fosse, tanto quanto possível, isenta e imparcial, de modo a aproximar-nos da desejável verdade. Infelizmente, em muitos casos, assim não acontece, pois, não raras vezes, propósitos obscuros, e outros nem tanto, estão subjacentes à manipulação de determinados números que distorcem, por completo, a realidade, numa clara intenção de manipulação da opinião pública.
Quando se divulga publicamente que o rácio professor/aluno na Região Autónoma dos Açores é de um professor para nove alunos, pressupõe que a mensagem que pretendem passar para a sociedade é a de que nesta Região os docentes estão numa situação altamente privilegiada, reunindo condições ímpares no contexto nacional e europeu, permitindo, deste modo, uma forte individualização do ensino e, por consequência, resultados que apenas não se atingem, única e exclusivamente, devido à falta do seu profissionalismo.
É esta visão deturpada e enganadora que temos de denunciar e combater, quando sabemos que a maioria das turmas até tem um número elevado de estudantes, havendo muitas que chegam a comportar entre 26 e 30 alunos, como o demonstra o Relatório Final da Organização do Ano Lectivo 2003/2004, da Inspecção Regional da Educação, numa amostra efectuada a um conjunto de unidades orgânicas, onde estas turmas numerosas chegam a atingir no 2º Ciclo 27% e no 3º Ciclo do Ensino Básico 10%. Onde está a honestidade da informação? Qual o propósito desta mistificação? Não estarão a contabilizar para o magnífico rácio os docentes que alimentam a “máquina” da Administração e quiçá do Governo, da Assembleia e de  outros Serviços cujas funções nada têm a ver directamente com a Educação? Porém, se assim não é, que culpa têm os professores da organização de um Sistema Educativo cuja disfuncionalidade permite esta desvirtuação estatística? Concedam aos professores a liberdade de decidir e tenho a certeza que todos prefeririam ser titulares de turmas com a dimensão anunciada, certos de que revolucionariam as estruturas educativas regionais e, consequentemente, fariam catapultar o sucesso educativo desta Região para o topo do ?ranking? nacional.
Idêntica análise poderia efectuar-se noutro domínio, onde se afirma que agora são realizadas 3824 acções de formação, tendo esta oferta, relativamente a 1996, crescido 616%. Como estes dados estão integrados num contexto de educação, pressuponho e o cidadão comum também, por certo, fará esta leitura, que os docentes dispõem, mais do que nunca, de um conjunto de oportunidades de formação que, no âmbito da formação contínua, lhes permitirá uma valorização pessoal e profissional de excelência no contexto nacional. Mais uma vez, todos os que possam fazer esta leitura são induzidos em erro, porque não só a Secretaria da Educação reduziu as oportunidades de formação para os docentes, numa clara discriminação negativa face aos demais colegas de profissão do todo nacional, que têm, neste momento, muito mais oportunidades de enriquecimento do seu currículo profissional, como, ainda, retirou a liberdade de cada qual poder gerir o seu percurso individual de formação, tendo, inexplicavelmente, que submeter a autorização superior qualquer formação, mesmo que se realize em período que não colida com a actividade lectiva, o que constitui, sem dúvida, um atentado à liberdade individual de qualquer cidadão.
Outros exemplos poderiam dar-se, tendo por base, por exemplo, uma afirmação da Srª Directora Regional da Educação ao dizer que a Região dispõe de um computador para 30 alunos, embora o ideal fosse um computador para 20 alunos. Dispensando-me, no momento, de qualquer comentário acerca da razoabilidade deste ideal, que me parece, aliás, pouco ousado, na medida em que não vejo que tipo de aprendizagem possam fazer vinte crianças ou jovens à volta de um computador, importa dizer que esta é mais uma falsa questão, na medida em que somos levados a concluir que todos os alunos têm igual acesso a este tipo de recursos tecnológicos para as suas aprendizagens, o que não corresponde à verdade, pois sabemos que em muitas escolas a maioria dos alunos apenas tem acesso a um ou dois computadores localizados, por norma, na biblioteca e que, se todos a eles recorressem, o acesso traduzir-se-ía numas magras horas por ano, muitíssimo distante do rácio divulgado, porque se assim não fosse, numa lógica de distribuição proporcional, cada turma poderia já dispor de um computador, o que está muito longe de acontecer.
Esta descontextualização da informação verifica-se em muitos outros aspectos que, de forma voluntária ou não, contribuem para a desinformação da sociedade e o consequente descrédito das entidades públicas. Há que promover uma cultura de seriedade e de responsabilidade. Podemos jogar com os números, mas não é legítimo nem justo jogar com as pessoas e muito menos induzi-las em erro. 

Armando Dutra

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